Os secundários serão os principais

Estreia, Palco

Fazem parte de uma das peças de teatro mais conhecidas do mundo e ainda assim pouca gente sabe quem são Rosencrantz e Guildenstern. Catarina Homem Marques foi atrás deles na nova encenação de Marco Martins.
Quando Marco Martins encenou a peça Num Dia Igual aos Outros, no D. Maria II, o actor Nuno Lopes partiu um pé e teve de contracenar de muletas com Gonçalo Waddington. Agora que está a encenar Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos, que estreia esta quarta no CCB, foi Gonçalo Waddington que partiu o pé quando a peça esteve no Porto e contracena de muletas com Nuno Lopes.
 
“É por isso que não gosto daquela tradição do teatro de desejar às pessoas que partam a perna”, confessa Marco Martins. Mesmo que agora já não seja preciso ficar preocupado com o actor de muletas, que já tem o pé saudável mas mantém a personagem tal como a construiu no início.  
 
Não quer dizer que haja uma maldição que provoca lesões sempre que Nuno Lopes e Gonçalo Waddington se juntam como dupla protagonista. Até porque neste caso, eles juntam-se para interpretar uma dupla que na verdade é mais do que secundária, mesmo que nesta versão de Tom Stoppard se torne protagonista. 
 
O que só se percebe quando se explicar quem são Rosencrantz e Guildenstern. “Eles são os dois amigos que o rei manda chamar para descobrir o que se passa com Hamlet na peça de Shakespeare. Em algumas encenações até são cortados. E nenhumas duas personagens de Shakespeare davam tanto para fazer uma peça sobre identidade como estas.” Em palco, tanto nesta peça como no original de onde são retirados, ninguém sabe sequer muito bem qual é qual. A diferença é que aqui o centro do palco é deles.
 
Quando os próprios percebem isso, depois de passarem tanto tempo a jogar à moeda e a acabar com o mesmo resultado, começam por ficar desorientados. “Acabam por perceber que há algo maior que os abandona. O que fazem eles quando não existem dentro da história, sendo que depois quando estão em cena lhes trocam os nomes.” E é a partir daqui que se tornam o motivo de várias questões existenciais.
 
“Temos duas personagens à procura de autor que passam a dois actores à procura da personagem.” E como é importante perceber a origem, há também várias cenas de Hamlet. E até há mais do que na proposta original. “Acho importante porque muita gente diz que conhece mas poucos sabem de facto a história. Não somos ingleses e não o damos na escola.”
 
Este valor acrescentado acaba por ser também uma forma de aproveitar o valor acrescentado dos actores que aqui acabam por fazer os papéis que se tornam secundários. “Por eles serem personagens secundárias num drama maior do que o deles, os outros papéis que aqui são secundários têm de ser feitos por actores principais. É ingrato ter a Beatriz Batarda a dizer oito falas na peça inteira, mas a vantagem é sermos um grupo muito próximo.”
 
Um grupo muito próximo que gosta de fazer teatro em conjunto e que encontra aqui uma temática profissional contemporânea. “O Bruno Nogueira aparece com um grupo de jovens actores que já não arranjam trabalho. No original é um grupo de velhos. O facto de aqui serem jovens e já não arranjarem trabalho é também uma leitura política.”
 
E se outro dos temas da peça é o destino e a impossibilidade de o controlarmos, é possível esticar a leitura política mais um bocado: “Estou sempre a projectar para o nosso presente em Portugal. Na peça há estas questões: podemos mover-nos, falar, dizer o que quisermos, mas no entanto não somos livres.”
 
Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos. Encenação de Marco Martins em cena no CCB, Qua-Seg 21.00, Dom 16.00. Bilhetes a 11€ e 13,50€.



 

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