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“Os desfiles gays são ridículos"


Bruno Horta convidou Simone de OLiveira para jantar o Bairro Alto. E ela disse que sim

É a atitude? A pose? A força ou o passado? É isso tudo, talvez, que faz dela uma diva dos homossexuais masculinos – a única diva portuguesa viva. Esta semana, durante um jantar no restaurante Põe-te na Bicha, de que é assídua há décadas, Simone desgovernou uma conversa sobre memórias e outras sexualidades. Aos 70 anos (50 de palco), continua a fumar e a beber como se não houvesse amanhã. E a falar de homens e paixões como se o tempo não passasse por ela. Esta mulher, de olhar fatal, não tem freio.

Porque é que os homossexuais gostam tanto de si?

Isso gostava eu que me explicassem. Ando há uma vida a ver se percebo.

A admiração não é de agora, portanto.

Sempre existiu, fui sendo adoptada. Outro dia estava a jantar aqui mesmo e ao lado estava um italiano, que me chamou e disse: “Se você fosse italiana, só podia ser a rainha da comunidade gay”. Eu ouvi aquilo e morri. O senhor não me conhecia de lado nenhum. Devo ter qualquer coisa. Agora, o quê, não sei. Dizem que é uma pessoa corajosa e determinada, mas também indefesa e frágil. Isto são características femininas e masculinas.

Talvez.

Não será por isso que a comunidade gay se revê em si?

É possível. Acho que admiram sobretudo a minha força.

Como é que se aproximou desta gente?

Sempre cantei em sítios onde se fazia travesti. Não sei se havia travesti em Portugal antes do 25 de Abril, mas depois houve muita coisa. Actuei muito no Scarlatti e no Memorial [zona do Príncipe Real]. No Scarlatti era acompanhada pelo irmão do João Villaret, o Carlos, e pelo José Manuel Rosado [travesti Lydia Barloff, falecido em 2002]. Aquilo era uma sala de espectáculos extraordinária. Eles maquilhavam-se que era uma perfeição, quem me dera saber pintar-me como eles. Ouvi as histórias mais incríveis. Convivi muito com esta gente, fiz grandes amigos e amigas no bas fond. Nunca critiquei, nunca fiz perguntas além do que devia. E depois começaram a vir as imitações que me faziam. Imitavam as minhas mãos no ar, a minha força, a minha maneira de ser.

Gosta dessas imitações?

Até vi coisas muito bem feitas. Uma vez, no Finalmente, eu e o Varela [Silva; marido de Simone, falecido em 1995], entrámos e estava um travesti [Katy Stone] a fazer de mim. Pensei: “Ai Jesus, que aquela sou eu!”. Saltei para o palco e pus-me a cantar com ela.

Dá impressão que até 1974 não havia gays em Portugal. A palavra gay ou homossexual não se usava, ninguém se assumia. Era assim?

Mais ou menos, sem bem que me lembro que uma vez, no São Luiz, estava o João Villaret em palco, e alguém grita um insulto. Ele respondeu: “Sou, sim senhor, com muita honra”. Agora, há uma coisa que me faz confusão na palavra gay. Gay, em inglês, quer dizer alegre. Isso é rigorosamente mentira. Se há gente triste são os gays. Uma tristeza, uma solidão, uma coisa… Não são os homossexuais, são os gays.

Qual é, para si, a diferença?

Homossexual é o homem que gosta de homens. Gay é um homem que gostava de ser mulher. Não sei se estou a dizer disparates, mas para mim esta distinção faz sentido. Neste país, há imensos senhores casados, com filhos, que gostam de homens e têm as suas relações. Somos uma sociedade perfeitamente mentirosa. O Guilherme de Melo, um escritor extraordinário de quem sou amiga, quando vivia ainda em Lourenço Marques casou-se com uma mulher para fazer a vontade à família. Ele conta isso no livro A Sombra dos Dias. E depois teve de dizer à mulher que não gostava de mulheres. Teve essa coragem.

As pessoas que antigamente não se assumiam publicamente, mas se assumiam para elas mesmas, viviam muito atormentadas?

Não sei. Naturalmente, viviam melhor do que hoje, em que se fazem aquelas paradas, aqueles desfiles ridículos. Aquilo não é nada. Aquilo é um dar nas vistas, é fazer brincadeiras de mau gosto. A homossexualidade não é isso. A noção que tenho é a de que não há nenhum homossexual que não tenha tido uma grande paixão por uma mulher, diz-me a experiência.

Nem que seja pela mãe.

Não, refiro-me à paixão sensual. Não deve haver nenhum. Depois não acontece, não se concretiza e passa. E mais não sei. Eu gosto muito de homens, isso é que eu sei.

Foi bom ser homenageada, há sete anos, pelo Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa?

Tenho lá em casa duas estatuetas notáveis. Quando fui convidada, fiz dois telefonemas: um para a minha filha, outro para a minha nora, hoje “ex-nora”. São pessoas que estão à minha volta. Achei que devia dizer-lhes.

Segunda-feira, dia 25, às 21.30, no Coliseu de Lisboa, Simone de Oliveira assinala 50 anos de carreira, com o espectáculo ‘Num País Chamado Simone’. Lara Li, Pedro Abrunhosa e Dulce Pontes são alguns dos convidados.

terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008



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