Time Out Lisboa logo
   Versão BETA







Vox Pop Time Out

É um sushi lover?


Não
Por vezes


  

Livros

Secção reservada aos lançamentos de livros semanais e acontecimentos literários

Livros

Destaques
Adicione aos Favoritos


Print this page   Send to a friend
Um lavagante ou a imagem de um certo país


E uma editora nasce com um inédito de José Cardoso Pires. Isabel Lucas* espreitou "Lavagante" e falou com Nelson de Matos sobre essa nova aventura

Marialva, rufia, quando se zangava não fazia ameaças de socos. Dizia que dava uma cabeçada a quem o ofendia. Baixo, entroncado, boémio, vivia entre os Anjos, o Intendente, os bares do Cais do Sodré. Lisboa era o seu habitat. Dominava a sua gíria marginal como poucos.

Reproduziu-a nos seus romances. Conhecia os seus cantos mais recônditos e dedicou-lhe um dos seus últimos livros. Chamou-lhe Lisboa, Livro de Bordo (2007, Dom Quixote), álbum de uma vida que desapareceu há dez anos e que deixou uma obra quase toda centrada na cidade do Tejo. Ele, José Cardoso Pires, era um citadino que por acaso, dizia, nasceu no campo, na aldeia de S. João do Peso, Vila de Rei, mas cedo se fez à cidade.

Ele que nasceu no campo dizia detestar o campo. Como não gostava do Natal, como não gostava de outras coisas politicamente correctas quando o “politicamente correcto” ainda não era expressão gasta, desbotada. Aqui, nele e na sua escrita, não há nada de bucólico. Autor de O Delfim (1968), Alexandra Alpha (1987) ou A Balada da Praia dos Cães (1982), Cardoso Pires morreu em Outubro de 1998, aos 73 anos, depois de ter deixado registada uma experiência de quase morte nas crónicas de De Profundis Valsa Lenta (2007). Ficaram vinte títulos, entre romance, crónicas, teatro, contos, ensaio.

Agora surge um 21º. Um inédito, dez anos depois da morte e, segundo o seu editor, Nelson de Matos – o homem que o acompanhou na Moares e na Dom Quixote durante cerca de 30 anos–, terá sido escrito entre 1963 e 1967, o ano da publicação de O Delfim.

“O manuscrito não está datado e foi guardado pela família até agora”, refere Nelson de Matos, que esteve anos à frente dos destinos da Dom Quixote, que, entretanto, dirigiu a Ambar e agora decidiu iniciar um projecto próprio com o seu nome e do qual é o único funcionário.

Para arrancar, nada melhor do que um inédito de José Cardoso Pires, “mais um livro cujo núcleo é Lisboa” e que se chama Lavagante. “Era uma obra acabada que teve várias versões, testemunho do cuidado com que Cardoso Pires sempre trabalhou a língua.Teve também vários títulos”, refere Nelson de Matos. Lavagante estava em todos e é uma metáfora dos tempos que então se viviam, como nos apercebemos numa conversa de bar, um bar de Lisboa, logo no início do livro. Uma pequena dissertação sobre a vida dos lavagantes. “Um lavagante é um crustáceo primitivo, sem grandes requintes na cozinha. É mais saboroso que a lagosta e parece mais selvagem porque não se adapta tão bem aos viveiros”. Isto era o que sabia o empregado de bar.

Mas a história do lavagante, bicho, é outra. “...o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente, obstinado, e terrível nos seus desígnios.” Aqui o narrador fala na primeira pessoa. Ele que continua: “Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. ‘Nesse momento fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.’”

O lavagante, para o escritor, era o retrato de todos os que exploravam, num tempo em que falar disso não era possível. Nunca falou desse livro. Nunca o publicou, talvez por achar que jamais passaria nas malhas da censura. Depois , quando a censura acabou, havia outras coisas, outras vontades. Para ele houve o teatro, houve Alexandra Alpha, romance por excelência de Lisboa e o livro ficou, foi ficando e segundo Nelson de Matos, “não é uma obra menor na carreira de Cardoso Pires”. “Claro que posso ser suspeito, sendo eu a editá-lo. Mas sei do que falo. Conheço toda a sua obra e esta, até pelo cuidado que o escritor pôs na sua redacção, mostra o empenho no livro.”

E lá estão os Anjos, o Intendente, lugares por onde anda o par amoroso do romance que já vai na segunda edição: ao todo, seis mil exemplares que o editor acredita conseguir aumentar dentro em pouco. “Cardoso Pires tem muitos leitores fiéis e uma nova obra dele, um inédito, desperta a curiosidade de muita gente.” No texto, nada foi mexido. O editor só se ocupou da capa, da mancha gráfica, da distribuição e divulgação de um livro que se promove a si próprio ou não tivesse a assinatura Cardoso Pires. Promove também a nova chancela que cuida de encontrar novos escritores em português, afinal a grande vocação que Nelson de Matos diz ser a sua enquanto editor. Não sabe quantos títulos virão até ao fim do ano. “Os que valerem a pena”... “Questão táctica”, como escreveu Pires neste Lavagante.

*Jornalista do DN

terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008



Veja também




O que pensa? Coloque a sua opinião
Nome *
Email *
Comentário *
   
*Campo obrigatório




© 2007 Time Out Group Ltd. Todos os direitos reservados.
Ficha Técnica | Estatuto Editorial


Av. da Liberdade, nº13 - 3ºEsq. 1250-139 Lisboa
Telefone: 21.359.31.00 Fax: 21.359.31.31
e-mail: geral@timeout.pt
Empresa jornalística: 223 753 * Registo de título: 125 225
Director: João Cepeda