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Tiago Manuel e os seus 25 heterónimos


É uma das mais fascinantes obras em construção no panorama editorial português. Sara Figueiredo Costa foi à procura de Tiago Manuel e das suas múltiplas faces

Quem for a uma livraria procurar obras de Tiago Manuel será remetido para a estante dos catálogos de pintura. Mas pergunte por Terry Morgan. Ou Tom McCay. Ou Tim Morris. Ou – acabadinha de chegar – Mariette Tosel. São alguns dos nomes do universo de Tiago Manuel, um caleidoscópio de vozes autorais com marcas muito próprias, responsáveis por livros nem sempre fáceis de receber, pelo modo cru como expõem ideias e pela dureza com que reflectem sobre o mundo. Tudo junto, eis um dos mais interessantes empreendimentos criativos a que temos vindo a assistir no meio artístico português.

Há vários anos que Tiago Manuel vem desenvolvendo esse projecto invulgar: a criação de 25 heterónimos, que publicarão cada um dois títulos (já estão publicados 12 – ver caixa).É um projecto conceptual que ganha leituras mais ricas à medida que os livros vão surgindo, remetendo-se entre si e provocando reflexões desencadeadas pelo pensamento de cada heterónimo.

Sobre esse work in progress, onde diferentes autorias se vão agregando, Tiago Manuel explica: “Eu sou tudo aquilo, quer na visão do mundo, quer na minha visão individual. Como todas as pessoas, eu não sou igual todos os dias.” E na verdade, cada assinatura corresponde a uma voz com características individuais e um programa de pensamento reconhecível, para além de uma expressão plástica única, o que por vezes é erradamente apontado como interesse supremo deste trabalho. Sobre isso, Tiago Manuel diz o seguinte: “Há quem veja o meu trabalho com os heterónimos do ponto de vista da ‘habilidade’ técnica. Ora, eu não sou um habilidoso; se fosse habilidoso era cozinheiro... O que acontece é que no meu trabalho eu recorro a diferentes meios, que conheço e domino, para me exprimir.”

Os mais recentes livros desse corpus em construção são assinados por Mariette Tosel, artista de origem belga (ver crítica na página ao lado), fortemente influenciada pela linguagem do absurdo. Reunidos num único volume, O Armário Psicótico e Boas Maneiras reflectem sobre a hipocrisia de alguns universos familiares, onde os segredos mais mesquinhos são escondidos num armário metafórico e onde a educação é uma fachada para o desastre. O humor como linguagem estruturante, elemento pouco frequente em heterónimos anteriores, surge de um modo que só aparentemente pode sugerir leveza: “Para mim, este livro é tão violento e cru como os outros. Com desenhos delicados, expõe a crueldade, as experiências desesperadas para se escapar a uma rotina que já é mais do que isso, já é confusão... Na verdade é um livro perverso, que vai ao fundo das coisas, mesmo que pareça arrumadinho.”

Despido dos seus heterónimos, o nome de Tiago Manuel associa-se rapidamente ao mundo das artes plásticas. No momento em que falou com a Time Out, o artista ultimava os detalhes de uma exposição que abrirá no dia 17 de Novembro, no Centro Cultural de Belém. “Manifesto das Lâminas” é uma exposição construída a partir do universo literário de Yukio Mishima, onde o confronto com os seus livros passa tanto pelo diálogo como pela reescrita. Levantando um pouco o véu do que será a exposição, Tiago Manuel diz-nos: “‘O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar’ inicia com uma entrada clássica de banda desenhada, segundo a uma técnica japonesa. No fundo, o que fiz foi escrever um novo livro com as palavras de Mishima, percebendo-lhes os ritmos e sem desvirtuar o sentido do texto.”

E acrescenta: “Os desenhos de ‘As Confissões de uma Máscara’ não têm palavras. Mas as pessoas terão o livro sobre uma mesa, bem como uma resma de papel e uma caneta, e aí podem escrever as suas próprias confissões, contribuindo para uma terceira reescrita do livro, depois da escrita do autor e do pintor.”

O convite à multiplicidade de leituras é, afinal, a constante do seu trabalho, e o centro de uma obra ambiciosa que não cessa, ela própria, de se expandir e multiplicar.

terça-feira, 21 de Outubro de 2008



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