Há um momento, quando se termina a leitura de 2666 – e às vezes lá pelo meio também acontece – em que a única palavra que pode definir o nosso estado é incredulidade. Não se trata de uma questão de falta de realismo da história, porque não se pode dizer que o que Roberto Bolãno (1953-2003) escreveu seja da ordem do fantástico puro, como acontece muitas vezes na literatura latino-americana, onde o autor é já um dos maiores nomes contemporâneos , ao lado de Julio Cortázar e Manuel Mujica Lainez.
É incredulidade perante o mundo que está dentro de 2666: mil páginas onde cabe o retrato aprofundado de mais de duas dezenas de personagens; onde cabe a literatura e os meandros dos escritores; o deserto do México, que o autor chileno conhece tão bem e para onde se mudou quando tinha 15 anos; mais de duzentos assassínios e violações de mulheres; o submundo da prisão mexicana; a Segunda Guerra Mundial; os sonhos premonitórios ou simplesmente desconcertantes; o racismo; a religião; a loucura dentro dos manicómios e fora dos manicómios, por todo o lado.
Há tanto dentro de 2666 que dizer que é só um romance é o mesmo que dizer que o Empire State Building é uma casinha. Na verdade estão cinco livros dentro deste livro, que poderiam ser lidos em separado, como uma saga. Antes de morrer, Bolãno pediu inclusivamente que assim fosse, e que 2666 fosse publicado em vários volumes para garantir o futuro económico dos filhos. No entanto, depois da leitura do romance, os herdeiros decidiram publicar o livro num só corpo, o calhamaço de mil páginas que chega à edição portuguesa através da Quetzal, numa tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra. E louvada seja essa decisão.
É que ler 2666 assim, em catadupa, é uma experiência. “Depois de ter lido Bolaño a nossa vida muda um pouco”, disse Francisco José Viegas, editor da Quetzal, em declarações à Lusa. “Não se pode esquecer aquilo que ele deixou escrito, e que é uma tempestade, uma torrente, um delírio, como deve ser a literatura”, diz o mesmo Viegas que considera 2666 um romance maior do que Ulysses, de James Joyce.
Dizer que esta leitura é uma experiência tem a ver com a rara certeza de que se está a ler uma obra-prima. Bolaño, autor do também elogiado Os Detectives Selvagens, espicaça o leitor quando menos se espera, é cruel, humano e irónico ao mesmo tempo, conduz-nos para os universos que ele próprio entende – tão diferentes como um combate de boxe ou uma conferência sobre literatura alemã –, e quando achamos que o que estamos a ler é sobre um escritor, salta para o deserto de Santa Teresa – uma cidade fictícia que já foi identificada como a Ciudad Juárez, uma das mais violentas do México – e descreve pormenorizadamente dezenas de crimes horrendos e inexplicáveis, um atrás do outro.
São esses crimes que vão servir de ponte entre todas as partes do livro, demonstrações de violência que fazem de 2666, entre outras coisas, um romance sobre o pior do ser humano, tema evidente logo na epígrafe: “Um oásis de horror no meio de um deserto de aborrecimento”, de Baudelaire.
Outra palavra chave é loucura. “A loucura é contagiosa”, diz Amalfitano, o protagonista da segunda parte do livro. No universo de Bolaño, tudo é contagioso. E se acontecer como em Espanha e nos EUA, esse contágio vai dar origem a uma nova palavra: bolañomania.
2666
Roberto Bolaño
Quetzal, 28,95€
terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Veja também


O que pensa? Coloque a sua opinião