Nos Estados Unidos há perto de 35 milhões de pessoas que usam o espanhol como primeiro idioma, e a tendência é que este número continue a crescer. Num contexto assim, não tardaria a surgir uma artista pop latina capaz não só de fazer uma ponte sólida entre os seus fãs de origem e a população que fala inglês, como também de atingir o estrelato planetário a partir de uma plataforma multicultural. Tamanha sorte não podia ter sorrido a alguém mais talentoso do que à cantora, compositora e produtora (e cidadã benemérita a valer, e incandescente dançarina do ventre...) colombiana Shakira. A pop e o rock do norte da América sempre andaram metidos com as raízes latinas de Shakira, mas nos seus cinco álbuns de originais anteriores (Fijación Oral Vol.1 e Oral Fixation Vol.1valem como objectos criativos autónomos), quando as faixas saíam a correr para o baile, era à costela sul-americana que apelavam. É aqui que se notam as maiores novidades de She Wolf. Globalmente, é o álbum mais dançável de Shakira e aquele em que, sem nunca abandonar por muito tempo a base sonora bilingue, mais se dança ao sabor de ritmos miscigenados mas decididamente made in USA (ou, vá lá, made in Caraíbas).
Assim acontece com o disco-sound do tema-título; com as quatro faixas co-escritas e co-produzidas por Pharrell Williams e os Neptunes, onde a marca r&b destes adquire umas cores garridas tão inéditas quanto bem-vindas; e no funk para bolas de espelhos de “Spy”, ao lado de Wyclef Jean.
O trio final de faixas deste álbum admirável, versátil, sucinto e seguro, reforça uma ideia central: ao traduzir “Did It Again”, “Why Wait” e “She Wolf” para, respectivamente, “Lo Hecho Está Hecho”, “Años Luz” e “Loba”, as canções de Shakira ganham novas dimensões. Conclusão: é a marca latina que merece a primazia.
Jorge Manuel Lopes
terça-feira, 20 de Outubro de 2009

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