Antes de falar d´O Ano do Pensamento Mágico, a peça de teatro, é necessário falar do livro que lhe deu origem. E como não é possível compreender um livro sem conhecer o seu autor, começamos, pois, por apresentar Joan Didion, escritora e jornalista norte-americana nascida em 1934, personalidade importante do Novo Jornalismo, com obra publicada e distinguida pelas mais respeitadas instituições.
Em Dezembro de 2003, sentava-se a autora para jantar com o marido, depois de visitarem a filha internada no hospital, quando este sofre uma paragem cardíaca. John Gregory Dunne não resistiu, assim como a filha do casal não resistiria a outras complicações de saúde, dois anos depois. No período em que recuperava da morte do marido, confrontada com a debilidade da filha, Joan Didion optou por fazer o que melhor sabia para controlar a dor que a incapacitava: escrever.
Fez um diário e, sem pudores, tornou pública a sua luta para evitar a auto-comiseração e superar a perda, recordando a cada página a sua história de amor. Publicado em 2005, O Ano do Pensamento Mágico tornou-se texto dramático pela mão da própria autora, que ofereceu ao palco o seu monólogo interior e deixou que se estreasse na Broadway e no National Theatre, em Londres. Traduzida agora por Pedro Gorman e encenada por Diogo Infante, a obra chega esta quinta-feira, 12, ao Teatro Nacional D. Maria II, com uma protagonista capaz de “abarcar o desafio” de interpretar estas palavras: Eunice Muñoz é “o epicentro” a partir do qual o espectáculo se desenvolve, numa encenação construída à sua medida e que tira partido da sua “arte sublime”, diz Diogo Infante.
Na sequência temporal dos acontecimentos, o ano do pensamento mágico refere-se mais precisamente àquele que se sucedeu à morte do marido de Joan Didion, mas o título – do livro e da peça – remete também para a definição antropológica do pensamento mágico, que assenta na crença e na superstição. “É uma série de situações mentais a que a ela recorria para suportar a dor”, explica o encenador, que não ficou imune à carga emocional aqui transposta. “O texto acabou também por ter eco em mim, ao fazer-me projectar as minhas dores e os meus fantasmas”, confessa.
A cenografia inclui, por isso, uma dimensão figurativa, que ambiciona representar “as sinapses de um cérebro, ou as raízes da árvore de uma vida”, mais do que o espaço físico que rodeia a actriz.
A narrativa, sem ser cronológica, apresenta-se ao espectador como “uma amálgama de estados de alma”: cose retalhos de memórias felizes com os desejos desfeitos, numa sucessão de elipses, saltos e mudanças de tom, regressando sempre ao fio condutor desta tragédia pessoal, a morte repentina de uma pessoa amada. O tema musical, composto por João Gil e interpretado ao piano por Ruben Alves, vai surgindo ao longo da peça, para pontuar as diferentes emoções que preenchem este monólogo.
Eunice Muñoz não representa aqui a própria Joan Didion, mas uma mensageira ou narradora, espécie de alter-ego que relata as experiências de vida e de morte num ambiente de grande exposição e intimidade. “Este é um testemunho de enorme densidade humana, foi dessa premissa que parti. Vi a peça em Londres, com a Vanessa Redgrave, e achei que cabia na dimensão da Eunice enquanto intérprete”, explica Diogo Infante. Apesar do luto e da tristeza, esta é uma história “inspiradora de exemplo e de motivação”, acrescenta, daquelas que se contam à volta da lareira para lembrar que nem a inevitabilidade da morte consegue apagar a esperança e vontade de sobreviver.
O espectáculo estreia-se na quinta-feira e está em cena até dia20 de Dezembro. Qua-Sáb 21.30, Dom 16.00. Bilhetes de 4 a 16€.
terça-feira, 10 de Novembro de 2009

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