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3/0s Persas


R. Poço dos Negros 120

Há imagens projectadas nas ripas do estore de plástico. E há o som, ou melhor, a palavra adoptada de Rui Nunes que se mistura com música e ruídos de rua. Depois há um clássico vindo lá do princípio do teatro: uma versão de Ésquilo encenada como uma melopeia também temperada pelos sons da cidade.

3 e Os Persas são peças autónomas, unidas em programa duplo pela circunstância de partilharem o espaço Rua Poço dos Negros 120, o novo espaço da companhia Cão Solteiro, – e pelo facto de se distanciarem da convencionalidade dominante.

Primeiro, a Cão Solteiro juntou-se a Miguel Loureiro e criou A Carta Roubada, parcela inicial de “uma trilogia desenvolvida a partir do tema do Sonho”. Foi no princípio do ano passado. Uns meses depois, mas agora com André Godinho, surgiu 3, agora em reposição. E em Dezembro completa-se o trio de peças com uma criação, ainda sem título, a meias com André E. Teodósio.

Até lá, o vídeo de André Godinho, construído exclusivamente com imagens do espectáculo anterior, evoca evidentemente a continuidade de A Carta Roubada em 3.

É uma espécie de memória que enquadra o texto de Rui Nunes (n. 1945), O Canto do Ocaso, substância do espectáculo, matéria que induz e conduz pelos territórios do insinuado, do não dito e do imaginado, enquanto nas ripas do estore Paula Sá Nogueira, Ana Ribeiro e uma mesa, simplesmente estão. Uma faz um puzzle; a outra de vez em quando levanta-se e anda de um lado para o outro. Pelo meio come-se, abre-se uma porta, olha-se.

Está-se, portanto. A bem dizer, aqui, esta noite, também não se passa nada, apesar de na sala, das costas do sofá branco, emergirem ocasionalmente mãos e braços e pés sem corpo nem rosto que se vejam. Como nos sonhos, a dinâmica vem do interior. É pessoal e dificilmente transmissível. Ou talvez nem tanto, quando o trabalho em progresso fechar a obra em Dezembro.

São indícios, como diz o encenador Miguel Loureiro; pistas para uma encenação de Os Persas em que a peça de Ésquilo (525 a.C.-456 a.C.) surge como uma espécie de cerimónia iniciática.

Na rígida estrutura deste espectáculo, a emocionalidade é contrariada por uma declamação mecânica que inibe a acção, realçando o carácter por vezes hipnótico da palavra através de uma cantilena onde se mistura o lamento dos persas depois da derrota frente ao exército grego com a ruidosa dinâmica da rua, até alcançar um momento de bela e estimulante musicalidade no coro final. Nessa evocação, variante do luto pelos mártires, Bruno Simão, Carina Reis, Inês Nogueira, Luz da Câmara, Martim Pedroso, Miguel Loureiro e Tiago Barbosa formam um corpo único de onde sobressai uma espécie de religiosidade – e deixam em aberto um caminho de possível leitura e encenação.

Rui Monteiro

terça-feira, 29 de Janeiro de 2008



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